Pular para o conteúdo principal

Sobre a ordem de leitura

Tudo mostra que C. S. Lewis não se importava com nuances que envolviam As Crônicas de Nárnia. Me lembro de que há algum tempo, em fóruns sobre Nárnia na internet, haviam debates sobre a melhor ordem de leitura. Mesmo que houvessem divergências, existiam consensos, como o de que livros como A Última Batalha, por exemplo, não devessem ser lidos primeiro, mas, por via de regra, para a maioria não existiam problemas maiores em começar tanto por O Leão, a Feiticeira... quanto por O Sobrinho do Mago.

Mas parece que para C. S. Lewis, nem mesmo estas questões eram importantes. A carta abaixo foi enviada a um jovem leitor que defendia que a leitura das crônicas deveria ser feita em ordem cronológica, enquanto que sua mãe pensava que deveriam ser lidas pela ordem de publicação. Lewis deu o seu parecer e ainda contou um pouco sobre seu processo de criação. Ao final, ele conta um pouco de como foi sua Páscoa e a situação da saúde de sua esposa, Joy.

23 de abril de 1957
Caro Lawrence
Eu acho que concordo mais com a sua ordem de leitura [cronológica] do que com a de sua mãe [de publicação]. A série não foi planejada com antecedência, como ela imagina. Quando eu escrevi O Leão, eu não sabia que escreveria outro. Então eu escrevi Príncipe Caspian como uma continuação do primeiro e não pensei que teriam outros; e quando eu escrevi A Viagem, eu estava certo de que seria o último, e mais uma vez percebi que estava errado. Portanto, a ordem que você lê os livros talvez não seja tão importante. Eu não posso lhe assegurar nem mesmo de que os outros livros foram escritos na mesma ordem em que foram publicados. Eu nunca guardo esses tipos de notas, tampouco me lembro de datas.
Bem, não posso dizer que passei uma feliz Páscoa exatamente, já que desde que me casei muito recentemente, a minha esposa está muito, muito doente. Tenho certeza de que Aslam sabe o que é mais conveniente e o que quer que ele faça, deixe-a aqui comigo ou leve-a para seu próprio país, será o melhor. Por todas estas coisas estou muito triste, como é natural. Estou convencido de que você e sua mãe rezarão por nós. Um abraço para vocês dois.
C. S. Lewis

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A diferença entre crer em Deus e crer em vários deuses

Como temos visto, inclusive nos mitos da criação, os deuses têm um começo. A maioria deles tem pais ou mães; às vezes conhecemos seu lugar de nascimento. Não se cogita que existam graças a si mesmos, nem que existam desde sempre. Ser é algo que lhes é imposto, como a nós, por causas prévias. São como nós, criaturas ou produtos; ainda que tenham tido mais sorte que nós por serem mais fortes, mais belos e estarem isentos da morte. Em outras palavras, a diferença entre crer em um Deus ou em muitos deuses não é apenas uma diferença aritmética. Ou seja, deuses não é o plural de Deus; Deus carece de plural. C. S. Lewis Reflections on the Psalms

Entrevista com C. S. Lewis: Materialismo e Religião

Perguntas feitas por funcionários da empresa inglesa Electric and Musical Industries Ltd, em 18 de abril de 1944. Pergunta:  Qual das religiões do mundo confere a seus seguidores maior felicidade? Lewis: Qual das religiões do mundo confere a seus seguidores maior felicidade? Enquanto dura, a religião da auto-adoração é a melhor. Tenho um velho conhecido já com seus 80 anos de idade, que vive uma vida de inquebrantável egoísmo e auto-adoração e é, mais ou menos, lamento dizer, um dos homens mais felizes que conheço. Do ponto de vista moral, é muito difícil. Eu não estou abordando o assunto segundo esse ponto de vista. Como vocês talvez saibam, não fui sempre cristão. Não me tornei religioso em busca da felicidade. Eu sempre soube que uma garrafa de vinho do Porto me daria isso. Se você quiser uma religião que te faça feliz, eu não recomendo o cristianismo. Tenho certeza que deve haver algum produto americano no mercado que lhe será de maior utilidade, mas não tenho...

A experiência de ler para os literatos

Um traço característico do homem literalmente iletrado¹ é que ele considera "Eu já li isso" um argumento conclusivo contra a leitura de qualquer obra. Todos nós conhecemos mulheres que lembram tão nebulosamente de um dado romance que precisam despender meia hora em uma biblioteca folheando-a, antes de ter certeza de que já o leram. Mas no momento em que têm segurança disso, rejeitam-no imediatamente. Para elas, o romance morreu como um fósforo riscado, um velho bilhete de trem ou um jornal de ontem; elas já o usaram. Aquele que leem grandes obras, em contrapartida, lerão a mesma obra dez, vinte ou trinta vezes ao longo de suas vidas. A primeira leitura de uma obra literária para os literatos² é, com frequência, uma experiência tão importante e significativa que apenas experiências como o amor, a religião ou o luto podem servir como parâmetro de comparação. Toda a sua consciência é alterada. Eles se transformam no que não eram antes. Mas não há nem indício de algo as...